Para Lisboa, uma carta de despedida

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{Trilha Sonora – guitarra portuguesa da boa}

Em uma tarde, em um café honesto no bairro do Restelo, sentada ao sol tomando um café, peguei meu diário e escrevi, sem querer, esta humilde carta de despedida para Lisboa, ou, como diriam os lisboetas, um até loguinho.

Da minha vida lisboeta o que mais aprecio são as paisagens vistas do alto com o horizonte limpo, gaivotas voando, o colorido da natureza, o azul do Tejo, céu ensolarado sem nuvem alguma. Minhas deliciosas tardes sentada ao sol, tomando café, lendo ou escrevendo. Seus modestos jardins. Os miminhos de seu povo. Os doces açucarados em alguns dias amargos. Os vinhos do Douro que muito me fizeram contemplar a estrela mais forte da noite a brilhar.

img_3312Os azulejos coloridos. As imensas escadarias. A malandragem, ah… é mesmo daqui que os cariocas vieram. O coentro na comida. O caranguejo na praia. O fado das padarias. Os gritos, corrijo-me, as conversas das senhoras nas janelas das casas antigas.

A autenticidade, generosidade e simplicidade do povo português me cativaram. Confesso que seus dramas, nos dias que eu me sentia bem, até me fizeram rir de tão patéticos (o típico “tempestade em copo de água”).  Em um telefonema, ao invés de dizerem “alô”, dizem: Estou! e o outro responde: Tá? e ele devolve: Tô – e aí sim começa a conversa. Para desligar o telefone, ambos lados dizem ao mesmo tempo – Beijinho, Beijinho, beijinho (sendo, no mínimo, três beijinhos, porque muitas vezes tem mais e mais beijinhos). Já, em emails, sempre escrevem ” grande beijinho”, o que me levou a assinar “beijão”. Devem ter me achado “uma brasileira dada”, faz parte…

img_3282Seu vocabulário… quantas palavras novas aprendi, vivi brutalmente esta experiência. “As gajas são fixes” –  As meninas são legais. “A malta muitas vezes me nervou” – A galera muitas vezes me deixou irritada, “nos nervos”. Pois! Assim foi… O feitio difícil da rapariga. O gajo parvo. Os miúdos me divertiram, enquanto os putos (criancinhas pequenas) se riram. Após horas na estrada, ouvi uma clássica portuguesa dizer:

– Dói-me o rabo! e eu disse:

– O que é isso, Teresinha?

– Oras Helena, queres que eu diga bum-bum?

Como fiz papel de parva (tonta) com estes portugueses.

Ah, Lisboa! Aqui conheci a minha maior solitude acompanhada de grandes virtudes. Suas poderosas lunações marcaram minhas mortes e renascimentos a cada mês. Fernando Pessoa virou meu confidente. Os montes de Sintra me energizaram. Suas colinas testemunharam meus maiores encontros.

img_4976Em seu rio frio nadei. Nas águas gélidas do atlântico também. Seus ventos dos faróis me castigaram, enquanto, seus alaranjados raios de sol me acarinharam. O fogo me transformou e a brisa me inspirou. Caí inúmeras vezes por causa de suas pedras antigas e escorregadias… mas a cada vez que me levantei, uma lição nova tomei.

Os alecrins espalhados por todos cantos da cidade perfumaram minha alma de verdade.  Suas velhacas, velharias e intermináveis histórias (lendas ou contos) arrancaram de mim uma paciência e respeito pelo passado que nunca me imaginei capaz.

Resisti bravamente, porém em vão, a sua nuvem melancólica que cobre esta cidade. Finalmente, fui mesmo forçada a me deixar fluir. Quando me entreguei, já sem medo ou pavor; sem resistência, com resiliência, quantas dores dentro de mim encontrei… mas, ao aceitá-las (com amor, miminhos e humor), delas me curei.

img_5375Obrigada pelos duros aprendizados, intercalados por momentos pateticamente engraçados. Como boa mestre que é, me assistiu com respeito e confiança sabendo que cada obstáculo era apenas uma nova lição; cada dificuldade, uma nova superação. Em todas descobertas cheguei mais perto de mim mesma. Intensa, lunática, colorida, melancólica, dramática, simpática, carinhosa. E não é que temos muito em comum? Ah Lisboa, obrigada por me ensinar, acolher e gratificar. Por fim, por me lapidar e libertar.

Com muita admiração, tenho-te em meu coração… e na exatidão dos meus sonhos seguirei sua contemplação. Obrigada, Obrigada, obrigada. Beijinho, beijinho, beijinho. Grande beijinho. Até loguinho. Beijão!

PS. Já com SAUDADES (ô palavrinha que é orgulho nacional)

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4 thoughts on “Para Lisboa, uma carta de despedida

  1. Mais um texto maravilhoso.As suas experiencias me ensinam muito.Lisboa com cereteza te adorou e te fez bem. Ela tambem sentirà saudades de ti,cara Helena.

  2. O texto da Helena deixa uma marca indelével do seu profundo amadurecimento literário, e um vocabulário que amadureceu com a sua vivência no país dos lusíadas !!! Parabéns !!

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