Lisboa: sensação de casa da avó

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{Trilha sonora}

Cheguei em Portugal há mais de seis meses. Estou a viver em Lisboa, cidade que tem gostinho de casa da avó. Essa é a melhor descrição que posso dar. Devo deixar claro que não foi amor à primeira vista. Vi a vovó e lhe achei uma velhinha caidinha demais. Eu não pretendia ficar. Mas algo que até agora não desvendei ao certo, me fisgou. O bichinho de Portugal me picou e me fez “pagar pra ver”.

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Aqui desapeguei do meu mundo e reconheci outro que nunca tinha percebido até então.

Eu achava que falava português. Descobri aqui o prazer de me comunicar em português com tantas nacionalidades que compartilham desta mesma língua, cada qual com seu acento e vocabulário distinto. Mas aqui é tão a casa da avó que descubro a cada dia os porquês dos nomes das coisas. palavras que soam estranho no Brasil e que aqui são usuais, como: filiação. Nunca amei falar português, aliás por muito tempo reclamei de seu pouco uso ao redor do mundo. Quanta ignorância! Aqui, convivendo também com outras culturas de línguas originadas do latim vejo o charme, a profundidade e beleza do português. Trocadilhos, rimas, canções, poesias… Nossa língua é muito divertida e com os ouvidos portugueses descobri que ao falar, eu ressoo como bossa nova. Aqui me apaixonei pelo meu falar português-brasileiro. Nunca havia me sentido canarinho antes.

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Tudo é poesia e doçura. Sem falar dos doces das freiras…

O visual da cidade me fazia lembrar demais o Brasil, o que me irritou profundamente no início. Eram tantas recordações, até o dia em que me dei conta que na verdade, o Brasil é apenas uma lente de aumento do pequeno Portugal. Fiz as pazes internamente com os colonizadores. A partir daí, tudo virou poesia. O drama do fado fazia-me rir. O cheiro de pão fresco pelas ruas de manhã me despertaram para as belezas dessa terra. Os azulejos das casas e ruelas de pedras me lembravam Parati, cidade que sempre serviu como um refúgio para a minha alma brasileira. A brisa do rio tejo que todo dia beija meus cabelos, me trouxeram a alegria que eu sentia ao chegar no nordeste brasileiro. As comidas temperadas com coentro, me lembram das paneladas de comida da minha mãe. A diversidade absurda de salgados (empadas, croquetes, enrolados) me recordam das guloseimas gauchas que eu adorava quando vivia em Porto Alegre. A vista do azul do rio com um Cristo redentor de braços abertos no meu caminho para o trabalho, me trazem o visual que aprecio do Rio de janeiro. São tantas as similaridades! E assim, sem perceber fui me aconchegando na casa da vovó.

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Sempre fui de observar a vida que passava pela minha janela. Aqui é cultural. Onde há janela, há uma pessoa de bituca na rua.

O tempo aqui passa mais lentamente. Mesmo sendo uma cidade grande, ninguém faz nada com pressa. Pessoas andam devagar nas ruas. Atendentes servem comidas com calma. Ranzinzos existem em qualquer lugar, e em uma população com tantos velhinhos, aqui não é diferente. Em Lisboa, eu presenciei as pessoas mais generosas com desconhecidos que já vi. há uma energia mágica no ar e aqui, até os ingleses sorriem. O sol está presente o ano inteiro. Flores e frutas mudam a cada mês. É uma terra fértil. Em muito pouco tempo, posso ir do frio da montanha ao calor da praia. Apesar de ser visto como um dos países mais pobres da Europa, foi aqui que encontrei as pessoas mais enriquecidas de vida. Pessoas que querem se divertir mais do que trabalhar. Viver com menos dinheiro para viver mais outras coisas que não dão dinheiro. Poetas, artistas, escritores, pintores, cantores… almas sensíveis. Lisboa é cheio de místicos, apreciadores da natureza, e jovens com almas velhas. Pessoas que são muito e onde o menos é realmente mais.

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4 thoughts on “Lisboa: sensação de casa da avó

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